Art & Design Magazine

The Chair Started to Fall

By Told By Design @toldbydesign

José Saramago – Objecto Quase: “Cadeira” – The Lives Of Things: “Chair”

The chair started to fall, to come crashing down, to topple, but not, strictly speaking, to come to bits. Strictly speaking, to come to bits means bits fall off. Now no one speaks of the chair having bits, and if it had bits, such as arms on each side, then you would refer to the arms of the chair falling off rather than coming to bits. But now that I remember, it has to be said that heavy rain comes down in buckets, so why should chairs not be able to come down in bits? At least for the sake of poetic licence? At least for the sake of being able to use an expression referred to as style? Therefore accept that chairs come to bits, although preferably they should simply fall, topple, or come crashing down. The person who does end up in pieces is the poor wretch who was sitting in this chair and is seated there no longer, but falling, as is the case, and style will exploit the variety of words which never say the same thing, however much we might want them to.
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One could say that the chair about to topple is perfect. But times change, tastes and values change, what once seemed perfect is no longer judged to be so, for reasons beyond our control, yet which would not be reasons had times not changed. Or time. How much time need not concern us, nor need we describe or simply specify the style of furniture which would identify the chair as being one of many, especially since as a chair it naturally belongs to a simple sub-group or collateral branch, altogether different in size and function, from these sturdy patriarchs, known as tables, sideboards, wardrobes, display-cabinets for silver and crockery, or beds from which it is obviously much more difficult, if not impossible, to fall, for it is while getting out of bed that one is in danger of breaking a leg or while getting into bed that one can slip on the mat, when in fact the breaking of a leg was not precisely caused by slipping on the mat. Nor do we think it important to say from what kind of wood such a small item of furniture is made, its very name suggests it was destined to fall1, unless the Latin verb cetera is some linguistic trap, if cetera is indeed Latin, as it sounds it ought to be.
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However, we must acknowledge a degree of perfection in this singular chair which is still falling. It was not purpose-made for the body which has been sitting in it for many years but chosen instead for its design, so as to match rather than clash excessively with the other items of furniture nearby or at a distance, not made of pine, or cherry, or fig, for the reasons already stated, but of a wood commonly used for durable, high-quality furniture, for example, mahogany.
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So far he has not leaned back. His weight, give or take a gramme, is equally distributed on the seat of the chair. Unless he moves, he might well sit there safely until sunset when Anobium normally recovers his strength and starts gnawing again with renewed vigour. But he is about to move, he has moved, reclining for no more than a second against the weaker side of the chair. And it breaks. First there was a crack, then when the old man shifted his weight, the leg of the chair snapped and daylight suddenly penetrated Buck Jones’s gallery and lit up the target. Because of the difference between the speed of light and sounds, between the hare and the tortoise, the explosion is only heard later, dull and muffled, like the thud of a body dropping to the ground. Let us bide our time. There is no longer anyone in the parlour or bedroom, on the veranda or terrace; and while the sound of the fall goes unheard, we are the masters of this show, and we can even practise that degree of sadism, in however passive a form, which we are fortunate enough to share with the doctor or the madman, in the person who only sees and ignores or, from the outset, rejects any obligation even if only humanitarian to render any help. Certainly not to this old man.

1In portuguese, chair is cadeira.

This are fragments from “Chair”, a short narrative piece included in José Saramago’s The Lives of Things, that describes the fall of a man from a chair with all kinds of details about physics, materials, sensations…

Thanks to Joana Carvalho & Carlos Valencia [feedback studio] for providing the portuguese [original] version:

“Cadeira”. In: SARAMAGO, José. Objecto Quase. Lisboa : Moraes , 1978. p. 13, 14, 15, 23.

A cadeira começou a cair, a ir abaixo, a tombar, mas não, no rigor do termo, a desabar. Em sentido estrito, desabar significa caírem as abas a. Ora, de uma cadeira não se dirá que tem abas, e se as tiver, por exemplo, uns apoios laterais para os braços, dir-se-á que estão caindo os braços da cadeira e não que desabam. Mas verdade é que desabam chuvadas, digo também, ou lembro já, para que não aconteça cair em minhas próprias armadilhas: assim, se desabam bátegas, que é apenas modo diferente de dizer o mesmo, não poderiam afinal desabar cadeiras, mesmo abas não tendo? Ao menos por liberdade poética? Ao menos por singelo artifício de um dizer que se proclama estilo? Aceite-se então que desabem cadeiras, embora seja preferível que se limitem a cair, a tombar, a ir abaixo. Desabe, sim, quem nesta cadeira se sentou, ou já não sentado está, mas caindo, como é o caso, e o estilo aproveitará da variedade das palavras, que, afinal, nunca dizem o mesmo, por mais que se queira.
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Já de perfeita se apelidaria a cadeira que está a cair. Porém, mudam-se os tempos, mudam-se vontades e qualidades, o que foi perfeito deixou de o ser, por razões em que as vontades não podem, mais que não seriam razões sem que os tempos as trouxessem. Ou o tempo. Importa pouco dizer quanto tempo este foi, como pouco importa descrever ou simplesmente enunciar o estilo de mobiliário que tornaria a cadeira, por obra de identificação, membro de uma família decerto numerosa, tanto mais que como cadeira pertence, por natureza, a um simples subgrupo ou ramo colateral, nada que se aproxime, em tamanho ou função, desses robustos patriarcas que são as mesas, os aparadores, os guarda-roupas ou pratas ou louças, ou as camas, das quais, naturalmente, é muito mais difícil cair, senão impossível, pois é ao levantar da cama que se parte a perna ou ao deitar que se escorrega no tapete, quando partir a perna não foi precisamente o resultado de escorregar no tapete. Nem cremos que importe dizer de que espécie de madeira é feito tão pequeno móvel, já de seu nome parece que fadado ao fim de cair, ou será conto-dovigário linguístico esse latim cadere, se cadere é latim, porque devia sê-lo.
[...]
Porém, uma certa perfeição haveremos de reconhecer nesta afinal única cadeira que continua a cair. Foi construída não de propósito para o corpo que nela tem vindo a sentar-se desde há muitos anos, mas escolhida por causa do desenho, por acertar ou não contradizer em excesso o resto dos móveis que estão perto ou mais longe, por não ser de pinho, ou cerejeira, ou figueira, vistas as razões já ditas, e ser de madeira costumadamente usada em móveis de qualidade e para durar, verbi grafia, mogno.
[...]
Ainda não se recostou. O seu peso, mais um grama menos um grama, está igualmente distribuído no assento da cadeira. Se não se mexesse, poderia ficar assim a seu salvo até ao pôr-do-sol, altura em que o Anobium costuma recobrar forças e roer com vigor novo. Mas vai mexer-se, mexeu-se, recostou-se no espaldar, pendeu mesmo um quase nada para o lado frágil da cadeira. E ela parte-se. Parte-se a perna da cadeira, rangeu primeiro, depois dilacerou-a a acção do peso desequilibrado, e num repente a luz do dia entrou deslumbrante pela galeria de Buck Jones, iluminando o alvo. Por causa da conhecida diferença entre as velocidades da luz e do som, entre a lebre e a tartaruga, a detonação ouvir-se-á mais tarde, surda, abafada como um corpo que cai. Demos tempo ao tempo. Não está mais ninguém na sala, ou quarto, ou varanda, ou terraço, ou; enquanto o som da queda não for ouvido, somos nós os senhores deste espectáculo, podemos até exercitar o sadismmo de que, como o médico e o louco, temos felizmente um pouco, de uma forma, digamos já, passiva, só de quem vê e não conhece ou in limine rejeita obrigações sequer só humanitárias de acudir. A este velho não.


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